Um clássico não chega a tal status por acaso. Seja ele um livro, um filme, uma música ou um jogo, se chegou a clássico é porque teve tanto a dizer, a tantas gerações diferentes, a tantas nacionalidades diferentes, que moldou até as pessoas cujas vidas ele alcançou. Por isso que, quando visito websites que elencam as obras de qualquer que seja a linguagem, vou carregado de ceticismo e cinismo. Mais ainda quando o website elenca jogos de tabuleiro, mídia que passa por um momento de exacerbado consumismo. Como jogos tornaram-se coqueluche, coisas para serem compradas e mostradas ao invés de serem sentidas e pensadas, tornou-se também comum desdenhar dos jogos clássicos, aqueles que todo mundo tem, aqueles que não diferenciam um colecionador de um consumidor comum. Os bons e velhos Banco Imobiliário, Jogo da Vida, War, Detetive, Combate, Scotland Yard, Interpol... Até mesmo clássicos mais recentes como Carcassonne e Catan já sofrem alguma esculhambação. Afinal, os compradores compulsivos irão exaltar estes jogos, que não separam mais a elite da ralé? Eles desconsideram, no entanto, que todo mundo tem estes jogos por um motivo: eles trazem regras fáceis de aprender, múltiplas possibilidades de ação em cada rodada, alta interatividade, fator sorte e fator estratégia bem equilibrados, ambientação interessante, e, somando tudo isso, são divertidos pra caramba. Estão no mercado há trinta, cinquenta, cem anos. Influenciaram milhares de criadores, milhares de criações. A elite do colecionismo deveria olhar para os vovôs com mais respeito.
terça-feira, 10 de fevereiro de 2026
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026
Identidade Visual
Sempre gostei muito de jogos de tabuleiro, não apenas por causa da musculação cerebral e da interação humana que eles fomentam, mas também por causa das narrativas que eles contam - através de suas mecânicas e de sua arte. E, falando em arte, devo admitir que sempre tive o nariz empinado e nunca engoli produtos com ilustrações cartunescas. Meu gosto sempre foi voltado ora para o realismo, ora para o exótico. Nunca para o humor. Sendo assim, revelo que poucas caixas de jogos conseguiram me estimular tanto, ainda nas prateleiras das lojas, quanto aquelas que traziam o logo da Estrela durante os anos 1990. Sim, os jogos dentro delas eram os mesmos Banco Imobiliário, Detetive e Jogo da Vida de sempre, mas ilustrados com fotografias que faziam tudo parecer tão importante, tão adulto, que não havia como ignorá-los. A empresa tinha identidade visual, e seu portfólio parecia mais rico graças a esta coerência entre seus produtos. Fora que os jogos ficavam lindos em qualquer estante! Hoje, nesta época em que a arte nos jogos vai ficando cada vez mais genérica, para não dizer mais robótica, fico extremamente nostálgico ao olhar para trás e enxergar uma Estrela tão brilhante no nosso antigo horizonte.
domingo, 8 de fevereiro de 2026
LEGO
Como meu avô gostava de fazer, montando ao meu lado castelos e navios de plástico, eu amo passar um tempo com meu filho montando trens, carros, casas, hotéis e restaurantes utilizando as pecinhas de um dos brinquedos mais brilhantes já criados. LEGO é tão bom que chega a ser terapêutico: quando o engenheiro está trabalhando, pensando nas maneiras mais criativas e firmes de completar seus projetos, esquece do mundo. Pode ficar horas e horas montando e desmontando até alcançar a construção ideal. Somem as dores, as ânsias e os medos, voltam a autoconfiança, a concentração e o planejamento. Também voltam lembranças, algo que somente um brinquedo que já enfrentou a passagem do tempo e resistiu a ela, graças à sua incontestável qualidade, pode proporcionar. Avô, pai, filho, neto e adiante, todas as gerações unidas pelo poder da brincadeira.




