segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Um adeus

O noivo é meu melhor amigo. Eu corto a gravata dele, pedaço a pedaço, convidado por convidado. Um ou outro resmunga, um ou outro sorri. Muito barulho enquanto isso.

Mas o barulho não consegue diminuir o peso de cada um dos pedaços da gravata. Cada um é um pedaço de adeus. Adeus a longas noites discutindo sobre cinema, filosofia, videogames e mulheres. Adeus aos filmes de terror amadores, às trocas de segredos sobre desventuras amorosas.

O primeiro pedaço da gravata cai, ainda um tanto leve, e eu olho para o resto do salão. Muitos convidados. A amizade, como ela é agora, tem pelo menos uma hora de vida. Ainda esbanjo certa tranquilidade.

Os convidados vão se esgotando. Eu puxo o noivo cada vez mais rápido. A agonia aumenta. Os pedaços da gravata ficam menores, porém mais pesados. O noivo brinca comigo: "agita a galera, agita". A última brincadeira.

As mesas estão quase no fim. O peso de cada pedacinho da gravata é insuportável para mim. Mais alguns minutos antes do término da amizade em sua forma atual. Em meu cérebro eu ensaio mais uma frase de efeito, mais uma piada, minha própria versão de um adeus. Mas a noiva chama o noivo para longe, para outra obrigação, para outra vida. E, antes do fim da gravata, antes do fim da festa, antes do fim da noite, veio o fim da amizade antiga.

Acabou.

5 comentários:

Darini, o Valente disse...

Ah, seu vagabundo...

Magnífico texto!

Magnífico! Magnífico! Magnífico! Magnífico! Magnífico! Magnífico! Magnífico! Magnífico! Magnífico!

Tá na minha relação "textos que eu queria ter escrito".

Que inspiração do caralho. Parabéns!

[]s

Mateus Fedozzi disse...

Obrigado! Obrigado! Obrigado!

=]

X disse...

Dadá tá certo, o texto é direto ao ponto mesmo e, o que é mais cruel, inevitável como situação.

Mário disse...

Eu passava horas e gastava todas as minhas moedas na locadora de videogames dele. Eu era um de seus fiéis clientes.

Mateus Fedozzi disse...

Corredor: thank you.

Chicão: só tranqueira, né?