domingo, 4 de janeiro de 2026

Viagem ao Extremo Oriente

No final do século passado, meu irmão entrou numa loja de brinquedos e viu ali, pela primeira vez, Sonic correndo em três dimensões. Também viu um jogo de pesca que achou muito legal, mas o Sonic era nosso queridinho. Quando voltou para casa, relatou maravilhado o que tinha visto, e eu fiquei a sonhar. E sonhei, e sonhei... Como seriam os jogos do Dreamcast, que meu irmão estava elogiando de maneira tão apaixonada? Continuei sonhando, e somente sonhando, pois o console de videogame era muito caro.

E sonhei ainda mais um bom tanto. Até que um amigo da escola conseguiu colocar suas mãos na máquina hoje lendária. Sonic Adventure, Crazy Taxi e Dead or Alive eram maravilhosos, embasbacantes, e jogar Phantasy Star online, com outras pessoas, era uma experiência quase anestesiante de tão inacreditável. Mas, dentre estes clássicos, um outro jogo chamava a atenção por ser diferente de tudo o que eu já havia jogado. Era um jogo que não tinha pressa. Diálogos longos, música tranquila, centenas de atividades possíveis... Comprar bugigangas numa lojinha, treinar artes marciais, comer num restaurante... Viver uma realidade totalmente distinta da minha, num universo sólido, consistente: uma cidade japonesa. Nasceu então um desejo que me acompanharia por anos: jogar esta obra inigualável, Shenmue, até o fim!

No entanto, não era possível ir todo dia para a casa do meu amigo, e não seria possível sequestrar o cartão de memória dele. Sendo assim, jogar Shenmue pra valer continuou sendo um desejo que não se concretizaria por muito, muito, muito (morreu o Dreamcast, a Sega saiu do mercado de consoles!), muito, muito, muito (a série Shenmue não conseguiu vingar nos consoles de terceiros!), muito, muito, muito (Yu Suzuki, o autor, saiu da Sega!), muito, muito, muito (a Sega relançou os dois jogos originais da série para computadores, mas o meu computador não consegue rodá-los!), muito, muito, muito tempo.

Casei-me, tive um filho, e meu filho, já com seis anos de idade, ganhou um computador. Consegui instalar nele Shenmue I & II, relançamento digital dos jogos originais para máquinas modernas. Vinte e cinco anos depois do lançamento, o jogo que tornara-se para mim tão impossível quanto alcançar as estrelas estava em minhas mãos! Entre janeiro e março de 2025, fui ao Japão para vingar a morte de meu pai, assassinado por um misterioso gângster chinês, e lá conheci pessoas que não são de carne e osso, mas que impregnaram minhas memórias com suas vozes e seus trejeitos como se fossem reais. Lá, conheci ambientes por onde caminhei de verdade, ares que respirei de verdade, sentimentos que senti de verdade. Shenmue é uma obra de arte. Shenmue é verdade. E, finalmente para mim, Shenmue é palpável.

Não parei no Japão. Fascinado com o primeiro capítulo, emendei logo o segundo. Viajei a Hong Kong e ao interior da China numa experiência que, embora não tão concisa quanto a primeira, trouxe personagens e ambientes igualmente memoráveis, vivos, inesquecíveis. E o que dizer do final de Shenmue II? Épico, mágico, poético, romântico, bucólico, lindo, de uma beleza sutil, que se expressa através de uma ambientação feita por artistas que sabem encaixar perfeitamente os blocos que constroem uma boa narrativa.

Enfim, Shenmue I e Shenmue II agora são parte da minha história. E quem sou eu depois deles? Sou virtualmente a mesma pessoa, mas agora ainda mais convicto de que um videogame pode me levar a locais distantes e me fazer amar e me preocupar com seres inexistentes de maneira tão eficaz, ou em certos aspectos até com maior eficácia, quanto um livro muito bom... Sou virtualmente a mesma pessoa, mas se alguém me perguntar se já fui à Ásia, direi que sim: "Sim, já viajei pra lá. Visitei Yokosuka no Japão, Hong Kong e Guilin, na China. São lugares fantásticos!"

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