Juntar ou jogar? Por que não ambos, afinal? Depois do sucesso estrondoso de Catan, na segunda metade dos anos 1990, os jogos de tabuleiro voltaram à moda. Durante a pandemia da COVID-19 então, passaram a ser artigos de luxo. Mais uma classe de objetos alvo do consumismo desenfreado que caracteriza nosso presente. O jogar deixou de ser tão importante quanto o comprar, o colecionar, o juntar. Nada contra juntar, eu já escrevi aqui que também sou um colecionador. No entanto, os "jogadores" criados nas duas últimas décadas parecem importar-se mais com a qualidade dos componentes de suas caras aquisições (que vão ficando cada vez mais caras para que esta qualidade não caia) do que com a qualidade das mecânicas de jogo. Jogos novos que compartilham exatamente o mesmo gameplay com outros milhares de jogos lançados anteriormente são cobiçados antes mesmo de seus lançamentos porque trarão temas remodelados, com novas peças de plástico que verão mesa uma vez, e depois nunca mais. Um sintoma dessa doença é a biblioteca de Reiner Knizia. Excelente designer, com criações maravilhosas, mas um campeão da reciclagem. Dos 700 jogos que ele alega ter inventado, uns 500 são iguais ou muito parecidos com algo que ele criou antes. Pessoalmente, eu gosto de ir devagar. Ao invés de comprar 24 jogos num ano e esquecer todos intocados, prefiro comprar 1 ou 2 que serão jogados 1 ou 2 vezes até o próximo dezembro. Um jogo não é como um filme, afinal. Exige preparação, montar, reler regras, juntar amigos, muitas horas disponíveis, e depois desmontar. Não é coisa que conseguimos usar o tempo todo, por isso passa eras e eras guardado. E, quanto maior a coleção da qual faz parte, quanto maior a concorrência de obras potencialmente mais interessantes, maior o tempo entre uma jogatina e outra. Maior o tempo embolorando na gaveta (por favor, não guardem jogos de tabuleiro em gavetas!). E aí, a ostentação vira, como sempre, desperdício. Peças plásticas são legais, cartas resistentes são legais, mas não dão prazer nenhum se a mecânica que as une não tem graça. Juntar é legal, mas juntar para jogar é ainda mais, muito mais.
sábado, 10 de janeiro de 2026
Mas e o jogar?
sexta-feira, 9 de janeiro de 2026
Usar, essência do colecionar
Parte meu coração ver pessoas colecionarem produtos lacrados. Porque sou um colecionador também, mas de outra estirpe. Aqui em casa, livros, filmes, games, brinquedos e moedas deixam pouco espaço para os humanos circularem. Mas há uma característica comum entre todos os elementos de todas estas minhas coleções: tudo é usado, tudo é manipulado frequentemente, com o máximo de cuidado. Usar é a essência do bom colecionar. Explico: usando, é possível identificar precocemente ou até prevenir alguns problemas que afetam objetos de papel, de papelão, de plástico, de madeira ou de metal. Muito mais fácil impedir que a umidade, o mofo, as traças, os cupins, a oxidação e outros tantos problemas causem grande estrago quando o produto é manuseado com frequência. Quando vejo objetos lacrados nas coleções de amigos ou de youtubers, não consigo parar de imaginar o nível de podridão que já se instalou dentro daquela caixa fechada. Parte meu coração porque é um pedacinho da história que morre ali asfixiado. Memórias trocadas por um bibelô caro, morto e inútil na estante: uma tumba com a lápide brilhante, mas ainda assim uma tumba.
terça-feira, 6 de janeiro de 2026
domingo, 4 de janeiro de 2026
Viagem ao Extremo Oriente
No final do século passado, meu irmão entrou numa loja de brinquedos e viu ali, pela primeira vez, Sonic correndo em três dimensões. Também viu um jogo de pesca que achou muito legal, mas o Sonic era nosso queridinho. Quando voltou para casa, relatou maravilhado o que tinha visto, e eu fiquei a sonhar. E sonhei, e sonhei... Como seriam os jogos do Dreamcast, que meu irmão estava elogiando de maneira tão apaixonada? Continuei sonhando, e somente sonhando, pois o console de videogame era muito caro.
E sonhei ainda mais um bom tanto. Até que um amigo da escola conseguiu colocar suas mãos na máquina hoje lendária. Sonic Adventure, Crazy Taxi e Dead or Alive eram maravilhosos, embasbacantes, e jogar Phantasy Star online, com outras pessoas, era uma experiência quase anestesiante de tão inacreditável. Mas, dentre estes clássicos, um outro jogo chamava a atenção por ser diferente de tudo o que eu já havia jogado. Era um jogo que não tinha pressa. Diálogos longos, música tranquila, centenas de atividades possíveis... Comprar bugigangas numa lojinha, treinar artes marciais, comer num restaurante... Viver uma realidade totalmente distinta da minha, num universo sólido, consistente: uma cidade japonesa. Nasceu então um desejo que me acompanharia por anos: jogar esta obra inigualável, Shenmue, até o fim!
No entanto, não era possível ir todo dia para a casa do meu amigo, e não seria possível sequestrar o cartão de memória dele. Sendo assim, jogar Shenmue pra valer continuou sendo um desejo que não se concretizaria por muito, muito, muito (morreu o Dreamcast, a Sega saiu do mercado de consoles!), muito, muito, muito (a série Shenmue não conseguiu vingar nos consoles de terceiros!), muito, muito, muito (Yu Suzuki, o autor, saiu da Sega!), muito, muito, muito (a Sega relançou os dois jogos originais da série para computadores, mas o meu computador não consegue rodá-los!), muito, muito, muito tempo.
Casei-me, tive um filho, e meu filho, já com seis anos de idade, ganhou um computador. Consegui instalar nele Shenmue I & II, relançamento digital dos jogos originais para máquinas modernas. Vinte e cinco anos depois do lançamento, o jogo que tornara-se para mim tão impossível quanto alcançar as estrelas estava em minhas mãos! Entre janeiro e março de 2025, fui ao Japão para vingar a morte de meu pai, assassinado por um misterioso gângster chinês, e lá conheci pessoas que não são de carne e osso, mas que impregnaram minhas memórias com suas vozes e seus trejeitos como se fossem reais. Lá, conheci ambientes por onde caminhei de verdade, ares que respirei de verdade, sentimentos que senti de verdade. Shenmue é uma obra de arte. Shenmue é verdade. E, finalmente para mim, Shenmue é palpável.
Não parei no Japão. Fascinado com o primeiro capítulo, emendei logo o segundo. Viajei a Hong Kong e ao interior da China numa experiência que, embora não tão concisa quanto a primeira, trouxe personagens e ambientes igualmente memoráveis, vivos, inesquecíveis. E o que dizer do final de Shenmue II? Épico, mágico, poético, romântico, bucólico, lindo, de uma beleza sutil, que se expressa através de uma ambientação feita por artistas que sabem encaixar perfeitamente os blocos que constroem uma boa narrativa.
Enfim, Shenmue I e Shenmue II agora são parte da minha história. E quem sou eu depois deles? Sou virtualmente a mesma pessoa, mas agora ainda mais convicto de que um videogame pode me levar a locais distantes e me fazer amar e me preocupar com seres inexistentes de maneira tão eficaz, ou em certos aspectos até com maior eficácia, quanto um livro muito bom... Sou virtualmente a mesma pessoa, mas se alguém me perguntar se já fui à Ásia, direi que sim: "Sim, já viajei pra lá. Visitei Yokosuka no Japão, Hong Kong e Guilin, na China. São lugares fantásticos!"
sexta-feira, 2 de janeiro de 2026
quinta-feira, 1 de janeiro de 2026
Feliz 2026!
Que estejamos aqui novamente no dia 1º de Janeiro de 2027 comemorando um ano repleto de conquistas, de tempo bem utilizado, de momentos divertidos e memoráveis, de alegrias bem compartilhadas. Até lá!

